O estudo da Bíblia é como a alma da Teologia, assim dizia o Concílio Vaticano II, referindo-se a uma palavra do Papa Leão XIII. Este estudo jamais chega ao fim, pois, cada época deverá, de um modo novo e próprio, procurar compreender os Livros Sagrados.

Ao celebrarmos os vinte e cinco anos do Pontificado do Papa João Paulo II, não poderíamos deixar de expressar nossa gratidão pelo seu empenho e dedicação no incentivo do estudo das Sagradas Escrituras. Dois documentos de suma importância sobre a Escritura no seu Pontificado merecem destaque: O primeiro, publicado em 1993, sob o título A Interpretação da Bíblia na Igreja, onde o papa assim se expressa: “este documento vem ao encontro de uma grande preocupação que me está a peito, porque a interpretação da Sagrada Escritura é de suma importância para a fé cristã e para a vida da Igreja. O modo de interpretar os textos bíblicos para os homens e as mulheres de hoje tem conseqüências diretas sobre a relação pessoal e comunitária dos mesmos com Deus, e está também estreitamente ligado à missão da Igreja. Trata-se de um problema vital, que merece toda a vossa atenção”[1].

O Santo Padre afirma que este documento deu-lhe a oportunidade de comemorar dois aniversários ricos de significados: o centenário da Encíclica Providentissimus Deus, e o cinqüentenário da Divino Afflante Spiritu, ambas dedicadas às questões bíblicas.

Graças ao texto, a interpretação da Bíblia na Igreja pode encontrar um novo impulso, para o bem do mundo inteiro, a fim de fazer resplandecer a verdade e exaltar a caridade, neste milênio. Ele lembra ainda e recomenda o cuidado com a leitura da Bíblia para não distorcer o conteúdo revelado. Chama a atenção da leitura fundamentalista que se faz da Bíblia, afirmando que a mesma “ é perigosa, pois é atraente para as pessoas que procuram respostas bíblicas para seus problemas de vida. Ela pode enganá-las oferecendo-lhes interpretações piedosas e ilusórias… o fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento”[2]. Por isso, os estudiosos da Bíblia devem ser fiéis à Igreja, trabalhando com competência e seriedade, para ajudar a própria Igreja a aprofundar sua compreensão da Palavra.

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O segundo documento, O povo Judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã, publicado em 2002, ressalta a importância do “caráter unitário da Escritura, Antigo e Novo Testamento. Não devendo haver distanciamento entre os irmãos judeus e cristãos. A Escritura, que chamamos de Novo Testamento, nasceu e se originou no interior do judaísmo; cristianismo e judaísmo possuem algo em comum: a Escritura revelada. Deus se dá a conhecer no Antigo Testamento através dos patriarcas, de Moisés e dos profetas. No Novo Testamento ele se revela plenamente em Jesus Cristo”.

O papa alerta os cristãos sobre a unidade da Revelação, dizendo que “sem o Antigo Testamento, o Novo Testamento seria um livro indecifrável, uma planta privada de suas raízes e destinada a secar. Portanto, a unidade dos dois Testamentos decorre da unidade do Projeto de Deus e da sua revelação”[3].

É preciso diz o Papa no Catecismo da Igreja Católica, que o “acesso à Sagrada Escritura deve ser amplamente aberto aos fiéis e que a Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força na Palavra de Deus”[4].

Ao falar do uso da Bíblia nas pastorais, o papa lembra que a catequese tem como primeira fonte a Escritura que, explicada no contexto da Tradição, fornece o ponto de partida, o fundamento e a norma de ensinamento catequético. Uma das finalidades da Catequese é introduzir a uma justa compreensão da Bíblia e à sua leitura frutuosa que permitam descobrir a verdade divina que nela contém e que suscitem uma resposta, a mais generosa possível, à mensagem que Deus dirige por sua Palavra à humanidade. “A fecundidade da Catequese depende do valor da hermenêutica empregada.”

Por ocasião da V Assembléia da Federação Bíblica Católica (FEBIC), em julho de 1996, em sua carta aos participantes, o Papa João Paulo II exorta: “Quando rezam e estudam, vocês devem estar profundamente conscientes da sede de vida divina que têm os homens e as mulheres de hoje, do grande desejo de certeza e esperança que preenche o coração de muitos seres humanos”[5]. A voz mística e profética do nosso pastor tem estimulado no Brasil o surgimento de muitos estudiosos da Bíblia que, através de uma leitura popular, ajudam nosso povo a compreender e viver melhor a Palavra de Deus. Isto levou também a uma maior expansão dos círculos bíblicos em todo o nosso país.

Peçamos ao Senhor que abençoe o nosso papa no seu ministério e lhe conceda paz e saúde.

Por Dom Eugênio Rixen


[1] Pontifícia Comissão Bíblica. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Pp. 5-7.
[2] Pontifícia Comissão Bíblica. A Interpretação da Bíblia na Igreja. Pp. 82-86.
[3] Pontifícia Comissão Bíblica. O povo Judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã. P. 11.
[4] Catecismo da Igreja Católica. nº 131, p. 46.
[5] Federação Bíblica Católica. A Palavra de Deus: fonte de vida: a Bíblia nas culturas. Pp. 7-8. Paulinas, 1997.

Publicado pela CNBB em 10/10/2003

Fonte Internet: http://www.universocatolico.com.br/

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