Daqui a pouco será Natal de 2009. Mais uns meses e fará 57 anos que entrei para um seminário, desejoso de fazer parte de uma sociedade de sacerdotes que acentuavam a solidariedade, um reino de vizinhos, no qual aquilo que se quebrou e estilhaçou tem conserto. Eram os padres reparadores, consertadores, restauradores, reparadores, também chamados de Padres do Coração de Jesus, hoje conhecidos como dehonianos.

Chego aos 68 anos e acho que fiz uma boa escolha. Para quem quiser de fato ser solidário, reparador, restaurador, aproximador, desapegado de coisa materiais, capaz de ceder o que é seu, desligado de fama ou de aplausos, mas disponível para ir aonde uma comunidade precisar de liderança, as portas continuam abertas. Os excessivamente individualistas, donos de um projeto pessoal irrenunciável terão dificuldade de conviver conosco.

Naqueles dias de l953 ainda havia florestas, muito verde, poucas famílias tinham conta nos bancos, não havia televisão, nem programas de baixo calão; não havia shoppings e supermercados, nem cartão de crédito, nem micro-ondas, nem celulares, nem fornos elétricos, os muros eram baixinhos, na vila onde eu cresci dormia-se de portas cerradas apenas com tramelas, os vizinhos se davam bem, crianças podiam brincar nas ruas sem grandes perigos, poucos tinham carros, os primeiros aparelhos de rádio eram colocados na janela para que todos ouvissem o Anacleto Rosas Junior e as últimas canções do Tonico e Tinoco. Não havia tanto a se consertar. A pobreza era digna. Ladrões e ladrõezinhos poderosos e violentos como hoje, não havia. Morria-se pouco por facas, tóxicos e arma de fogo.

Anos depois, congregação dos dehonianos me aceitou como seu pregador, a Igreja me ordenou sacerdote, fui estudar, aprendi cinco línguas, corri mundo falando às famílias e aos jovens, escrevi quase uma centena de livros, editei mais de 100 Cds´s, compus milhares de canções, preguei e ainda prego em periferias, em templos, estádios, ginásios e praças, televisão e rádio e vejo que o “progresso” encheu as casas de coisas, mas vejo muito mais divórcios, separações, abandonos de lar, mais droga, mais motéis, mais filhos sem pai e mãe, mais violência, mais depressão, bandidos poderosos e comandar de dentro dos presídios, o congresso e a câmara desmoralizados, corrupção difusa por toda a sociedade. O país cresceu mais por fora do que por dentro. Faltou escola, religião e família. Naquele tempo havia mais disso. Talvez por isso não fosse preciso muros com cacos de vidro, nem cercas eletrificadas, nem alarmes em todas as portas.

Estive perto de acontecimentos mundiais marcantes. Vi o começo dos Beatles, estive perto de Berkeley, John Hopckins, e vi os movimentos estudantis dos fins dos anos 60. Estudava lá nos Estados Unidos quando mataram os Kennedy, quando mataram Luther King, vi a comoção dos italianos no período da Brigate Rosse, presenciei pela televisão os dias da morte de Aldo Moro, vi a Revolução dos Cravos em Portugal, estava na Espanha quando entronizaram Juan Carlos e quando voltou a democracia. Vi a volta da democracia no Brasil. Vi o nascer do PT e percebia o entusiasmo de seminaristas, padres, religiosas e de muitos dos meus jovens. Ai de quem não fosse petista naqueles dias. Eu não era e não sou, mas votei no PT algumas vezes. Hoje alguns daqueles jovens, hoje homens feitos, dizem que entendem porque eu sugeria que não trocassem a igreja pelo PT.

Vi a violência das esquerdas e a repressão no Brasil, vi o crescer da Teologia da Libertação e depois o crescimento da RCC, e fiz as mesmas perguntas que fazia sobre o PT e as comunidades de base. Era maravilhoso, mas teríamos que ouvir outras correntes de pensamento na igreja e na política. Não sei quantas vezes fui acusado de ficar em cima do muro.

Vi igrejas e movimentos começarem e murcharem. No curto espaço de quase 60 anos presenciei um mundo em mudanças vertiginosas e, mercê do marketing da ocasião, esperanças artificialmente transformadas em certezas. Todo mundo achava que agora, sim, seria do jeito deles. Franco, Fidel Castro, Che Guevara, Pinochet, militares no poder, esquerdas no poder, ditaduras que se sucediam, democracias fragilizadas, igrejas portadoras da última revelação e da verdade mais verdadeira. Duraram pouco.

Li os livros da época, cada qual mais urgente e mais cheio de respostas a dizer que era por ali ou por acolá. Aprendi a não me amarrar a movimentos, nem partidos, nem grupos de respostas prontas. Nunca abri nem abro a Bíblia de olhos fechados nem ponho o dedo em algum ponto a dizer que Deus me dirá o que fazer. Não acredito em partidos, ideologias e religiões imediatistas, nem em pregadores e líderes que garantem que Deus ou a História lhes deu as chaves do futuro. Não sou adepto de “abracadabra”, nem de “mamãe mandou bater nessa daqui”. Milagres: Creio neles, mas não em milagres por atacado. Creio ainda menos em milagreiros que até dão a data e o lugar dos próximos milagres.

Acho que tudo se conquista lentamente, com vitórias e revezes, dois passos à frente um passo atrás, mas logo a seguir outros dois passos à frente. Aprendi a raciocinar sobre o tempo, as pessoas, a história, a fé. Leio muito e reflito outro tanto. Não me guio só pelo sentir, nem só pela razão. Tento viver os dois no seu devido tempo. Sou um pouco pathein e mathein. Quero sentir e quero entender.

Se fiquei mais sábio? Não sei. Mas acho que fiquei menos tolo. Não corro atrás do primeiro que me diz que seu partido tem a resposta política para o nosso povo, nem do primeiro que afirma que Deus falou com ele. Trago, desde a infância, uma prancha de surf espiritual chamada pensamento que me permite surfar as ondas, equilibrando-me, sem mergulhar em todas. A prancha me ajuda a mergulhar e fugir de outras nas quais acho que não devo surfar. Nunca me imaginei na crista de onda qualquer. Escolho a onda e a crista e reservo-me o direito de não ir só porque todo mundo me grita “vai nessa, Zé”.

Se sou filósofo? Menos do que todos os que já li, mas o suficiente para não montar o primeiro cavalo xucro que me oferecem, nem que ele se chame “mídia”. É bonito, charmoso todo holofotizado e leva longe, mas também derruba. O que ensino? Que o alpinista escolha a sua trilha, o surfista escolha sua onda, o peão o seu cavalo e seu touro, o pregador escolha sua mídia aprenda a falar e a se calar na hora certa. Vi muita coisa que outros não viram e li muitos livros que os outros não leram, nem por isso prego certezas. Prego mais fé e esperança do que certeza. As Bíblia que conheço não tem todas as respostas. Deus não as dá todas. Temos que procurá-las penosamente se quisermos encontrar o Senhor. O livro Santo diz que Deus às vezes se esconde! Não é que o sol se esconde, mas as nuvens às vezes não permitem vê-lo ou receber as suas luzes.

Continuo na mesma sociedade de sacerdotes, faço o que posso para reparar os ferimentos do nosso tempo, tento não pregar ninguém na cruz e, quando vejo que crucifiquei, tento reparar; quando outros crucificaram, indico pessoas que sabem fazer mais do que eu.

Dias atrás, pediram-me um testemunho. Acho que decepcionei quem esperava uma longa fala de quem viveu 68 anos e esteve em mais de 40 paises pregando a palavra de Deus, cantou e escreveu tanto. Disse apenas:

– Nunca vi Deus, Ele nunca falou comigo, nunca vi nenhum anjo, nem santo algum me apareceu. Jesus não me fala em sonhos nem aos ouvidos. Vivo da fé que tenho. Nunca vi nem ouvi Maria. Não sou vidente, nem quero ser um vidente evidente. Mas creio que Deus me dá sinais. Alguns deles eu soube ler e outros não. A vida é um imenso hierógrifo de difícil leitura. Mas algumas passagens eu já decifrei. Outras foram decifradas para mim. Continuo aprendiz e espero morrer aprendiz. Talvez por isso tenha sido mestre para alguns que me lêem, cantam ou escutam. Falo mais para a cabeça do que para o sentimento. Proponho que a cabeça do cristão tenha o mesmo tamanho que o seu coração. Preocupam-me cérebros do tamanho de um ovo de codorna e corações do tamanho de uma melancia. A função da catequese é ajustar o tamanho do cérebro e do coração. O raciocínio é um dos maiores dons do Espírito Santo. Traz discernimento, sem o qual escolhe-se errado. Se posso ensinar alguma coisa, sugiro que pensem mais, ouçam mais, leiam mais e dialoguem mais, sem esquecer de orar mais a Deus e ajudar mais os outros.

O que Deus fez em mim e por mim, Ele sabe e eu sei. Mas prefiro falar sobre o que Ele fez por Maria, por José, por Pedro, por Paulo, Francisco, por Clara e por gente muito mais santa e com histórias de vida bem mais bonitas do que a minha. Com tantos santos, com belíssimas histórias de vida para contar ao meu povo, porque eu haveria de falar de minha experiência?

Falei um pouco, mas se perceberam, não acho que devo ser outdoorizado. Não entendi tudo o que me foi dado ver. Continuo pensando, estudando e tentando guardar no coração aqueles acontecimentos. Aprendi isso com a catequista, teóloga e discípula pensante, Maria de Nazaré, mãe daquele que anuncio!

Pe. Zezinho scj

Fonte Internet: http://www.padrezezinhoscj.com/wallwp/artigos_padre_zezinho/comportamental/carta-a-quem-me-cobra-um-testemunho

Entrevista com Padre Zezinho, scj (1ª Parte)

Entrevista com Padre Zezinho, scj (2ª Parte)

Entrevista com Padre Zezinho, scj (3ª Parte)

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